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domingo, 1 de março de 2015

[Teatro] By Heart, de Tiago Rodrigues


Título: By Heart
Local: Teatro Maria Matos
Texto, encenação e interpretação Tiago Rodrigues

Texto com fragmentos e citações de: William Shakespeare, Ray Bradbury, George Steiner, Joseph Brodsky, entre outros
Cenário, adereços e figurino: Magda Bizarro
Produção: Mundo Perfeito

Sinopse:
“Um espetáculo que parece de uma simplicidade fraternal, um espetáculo breve, mas tão profundo, tão ambicioso e tão magnífico que saímos dele completamente comovidos.” Le Figaro, novembro 2014

Em By Heart, Tiago Rodrigues ensina um poema a dez pessoas à frente do público. Enquanto os ensina, vai desfiando histórias sobre a sua avó quase cega e sobre escritores e personagens de livros que, de algum modo, estão ligados a ela e a ele próprio. Esses livros também estão lá, em palco, dentro de caixotes de fruta. E, à medida que cada par de versos vai sendo ensinado ao grupo, emergem ligações improváveis entre o vencedor do Nobel Boris Pasternak, uma cozinheira do Norte de Portugal e um programa de televisão holandês chamado Beleza e Consolação.

By Heart é uma peça sobre a importância da transmissão, do invisível contrabando de palavras e ideias que apenas guardar um texto na memória pode oferecer. É sobre o esconderijo seguro que os textos proibidos sempre encontraram nos nossos cérebros e nos nossos corações, garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados. Como disse o teórico de literatura George Steiner numa entrevista ao programa de televisão Beleza e Consolação: “Assim que dez pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”.

Depois da estreia em 2013 e de uma digressão internacional de sucesso, voltamos a apresentar By Heart de Tiago Rodrigues, com uma sessão à tarde destinada especialmente às escolas secundárias.

Opinião:
Entramos no Maria Matos e temos a plateia transformada numa bancada. Circundamos a dita bancada e procuramos um lugar para nos sentar. Tiago Rodrigues já se encontra em palco, sentado num escadote e rodeado por cadeiras vazias, cinco de cada lado. Enquanto espera pela hora e que todos os espectadores entrem e se sentem, Tiago Rodrigues observa e lê descansadamente o livro que tem em mãos. À sua frente estão caixas da fruta com livros dentro. Esta é a primeira impressão do que nos espera.

Sem qualquer marca o público cala-se e Tiago Rodrigues ri-se e diz-nos que podemos continuar a falar porque ainda não é a hora. Passado uns minutos, levanta-se e dirige-se a nós. Explica algumas das “regras”. Ele propõe-se a ensinar-nos um poema. Iremos sair dali com um poema decorado. E diz que o espectáculo só começa quando dez voluntários se levantarem e ocuparem as dez cadeiras vazias em seu redor.

Rapidamente várias pessoas se levantam, cinco das pessoas são crianças – o que achei interessante porque foram os primeiros a levantar-se e a irem para o palco. Sem inibições. No entanto, só nove cadeiras estavam ocupadas. Então, Tiago Rodrigues continuou a ler e só voltou a dirigir-se a nós quando a última cadeira foi ocupada algum tempo depois.

Contou-nos a história da avó Cândida, da carta que escreveu a George Steiner depois de ter ficado tão marcado por uma entrevista que o teórico tinha dado a um canal de televisão, onde falava sobre a memória. Nos entretantos da história ele vai ensinando os versos do Soneto 30 de Shakespeare aos dez voluntários em palco. Nós, na bancada, vamos também involuntariamente aprendendo o soneto. Tudo se vai encaixando. Tudo vai fazendo sentido. Tudo se torna uno. E tudo está na nossa memória.

Sem memória somos nada. Não temos passado, não temos presente e não temos futuro. Aquilo que está na nossa memória não nos pode ser retirado. Depois de perdermos tudo, a memória continua connosco. É o nosso bem mais precioso.

Quando aceitei o convite de uma amiga para ir assistir a este espectáculo não sabia ao que ia. E assim que soube que havia interactividade fiquei de pé atrás. Mas o espectáculo não fazia sentido de outra forma. Achei interessante como ao contar-nos a história da avó Cândida, fomos absorvendo o poema de Shakespeare, aliás, pelas palavras de Tiago Rodrigues, fomos comendo o Shakespeare – os dez voluntários levaram a metáfora ao ponto literal quando lhes foi oferecido hóstias com o poema gravado.

Adorei. Foi um óptimo espectáculo, simples e intimista, quase como uma tertúlia na casa de um amigo. Foi um bom tempo passado. Alguns momentos mais emocionantes, outros momentos divertidos. Um espectáculo espectacular.



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